Wednesday, August 30, 2006

Suor, lágrimas e saudades

O sol permanece escondido entre os raios de Lua que teimam em reinar no amanhecer da cidade. O dia ainda nem começou, quando centenas de homens deixam os alojamentos e caminham com destino à obras que lhe fornecerão “o pão de cada dia”. A barriga ronca, o hálito diz da precariedade da dentição o e os braços se erguem num espreguiçar que deixa à mostra a musculatura rígida feita de pancadas de estacas e levantamento de sacos e mais sacos de cimento.

Sorrisos trocados com companheiros, olhar escantilhado para os lados em busca de capacete e roupagens coloridas com os logotipos de empresas tercerizadas fazem a rotina destes homens cujas rugas na face dão conta dos anos em que servem de “mão-de-obra”, deixando transparecer o belo olhar infantil que brota na universal identidade com seus companheiros de labuta.

O ranger da porta, feita de restos de taipas de outras obras e a tramela fixada ali com carinho e arte, deixa entrar os primeiros raios de sol que, como que pedindo licença, começa a esquentar as entranhas do alojamento. Os beliches, com esteiras abertas pelos anos de uso, deixam à mostra o madeirame duro que se faz de estrado.

Rostos lavados em vasilhames, bochechos e abrir de bocas são as primeiras identidades desta universalidade humana. As xícaras de alumínio, algumas já amassadas pelo uso antigo, recebem os lábios sedentos de sede e fome destes homens que partem para as obras da construção civil nos luxuosos bairros da cidade de Macaé, estado do Rio de Janeiro, arrotada pelo monopóio dos meios de comunicação como a “capital do petróleo” e a “melhor cidade para se viver, morar e trabalhar”.

Ainda com o estômago embrulhado pelo alimento do dia anterior, eles sorriem entre si, falam, em seu linguajar alegre e partem para a luta. Assobios, cantigas, versos ao vento e, sei lá onde tanta pureza brotando da brutal vida que a sonorização dos versos e cânticos, penso, os elevam ao patamar dos pássaros.

Uns fumam, outros biritam. Uns falam de mulheres, outros de religião. Todos, no entanto, arquejam no andar e deixam à mostra a incerteza do dia seguinte. Se a fome aumenta, engolem o último pedaço de pão comprado no mercadinho perto do alojamento. Se sentem sede, bebem da água encanada. “Barrigas vazias são tambores da revolução”, dizia Adão Nunes que, nos anos de sua militância ainda acreditava no parlamento. Os tempos passam, outras barrigas batem tambores em outras fomes.

A construção civil não pode parar. Hotéis de luxo para abrigarem os patrões do patrão. Suas carteiras de trabalho não pesam mais em seus bolsos. Elas foram requisitadas pelo jagunço das empreiteiras e viajaram para outros estados para serem “assinadas”.

A fachada da obra tem nomes suntuosos de conhecidas empresas no ramo nacional. Publicidades são feitas em seu nome, jantares e reuniões idem, retratos e visitas caritativas em clubes sociais também. Colorida e iluminada, a fachada das obras ostenta o nome de socialites famosos, com suas caretas famigeradas e seus cabelos pintados que deixam transparecer o olhar cruel de quem enriqueceu à custa do sacrifíio de homens e mulheres indefesos e puros.

A mais-valia astronômica que esses cafajestes da construção civil embolsam é tão monstruosa que eles abrem hotel em cima de hotel, como se estivessem construindo barquinhos de papel. Fazem edifícios com andares em local antes proibidos e em praias que terão seus dias finitos pelas sombras que, por certo, virão em pouco tempo.

O bolso vazio do traseiro que não tem mais a carteira de trabalho é preenchido com papéis e anotações. Uma espécie de diário onde se pode ler, em alguns “garranchos” gramaticais, anotações de dias, horas, sábados, domingos e tardes noites de extras.

O jagunço que pegou as carteiras fala grosso. Gesticula em gestos brutos sem saber que põe para fora sua homoxessualidade reprimida. Fala com os trabalhadores como se estivesse em campo de batalha e dando voz unida. Diz-se assessor do dono do hotel e que as carteiras irão chegar de São Paulo em menos de 3 meses. Os operários se olham em silêncio. O último que ousou desafiar este monstrengo em forma de humano foi despedido e está passando fome nas ruas empoeiradas dos bairros periféricos de Macaé. Quer voltar para o Maranhão e está esperando ser atendido pela assistência social.

— Ele mesmo disse — falam quase balbuciando — que o maranhense já viu várias vezes o jagunço tomando chope com o pessoal da prefeitura.

Todos os operários foram pinçados fora de Macaé. Uns vieram do interior da Bahia, convidados por outro jagunços, que se diz dono de empreiteira e que assinou mais de cem carteiras de trabalho. Outros foram trazidos do Maranhão, cidades bem do interior. A maioria trouxeram de São Paulo e Minas.

O jagunço que se diz empresário e recolheu as carteiras sumiu das obras. Dizem que foi para São Paulo. Lá uma outra obra, precisamente em Bauru, deixou centenas de operários sem receber. Como eles eram, a exemplo dos daqui, de outros estados, não ficam para “por no pau estes canalhas”. Precisam viver e partem para outra.

Num canto da cidade os donos das construções e seus jagunços festejam mais uma grandiosa obra, inaugurada com a presença de todas as autoridades civis, militares e eclesiáticas do município.

Fonte: http://www.anovademocracia.com.br/29/27b.htm

Joga a rede no mar... deixe a onda bater

Crônica

José Milbs

Eles habitavam toda região do litoral do Rio de Janeiro. Corpos morenados pelo sol sem os protetores e nenhum deles com doenças de pele. Suas redes, tecidas a mão por suas companheiras e filhas, tinham o sabor da arte e do bom gosto. Sempre alegres e de olhos acessos e avermelhados, estes senhores dos mares eram figuras presente em toda história nas cidades que habitavam.

Cabo Frio, Búzios, São Pedro de Aldeia, Rio das Ostras, Barra do Rio São João, Macaé, Farol de São Tomé, Ata fona e São João da Barra eram locais em que seus barcos, com pequenos motores e bastante experiência de mar, os levavam nas noites enluaradas e de manhãs amenas. Enchovas, Gordinhos, Galos, Marimbas, Serras, Espadas, Pescadas, Pescadinhas e siris do mar, eram sempre o produto de suas noites onde as gaitas, o velho rádio de pilha e um violão com 4 cordas, deixavam em aberto o coração de volta e mais volta aos lares...

As beiradas das praias estavam sempre cheias de muita gente. As chegadas dos barcos, passando pelas ondas bravias, eram saudadas por centenas de acenos. Mulheres e filhos se juntavam a outros na expectativa de ver o produto de mais uma noite de pesca.

Os pescadores tinham saído de suas simples e aconchegantes residências em plena madrugada. Antes tinham olhado o céu, reparado de onde vinha o vento e, antes mesmo de apagar as luzes dos candelabros de seus quintais, já estavam assoviando cânticos e cordiais acenos aos vizinhos que se juntarão a outros e partirão para o alto mar...

A pesca tinha a essência do belo artesanal. As vendas eram feitas ali mesmo nas praias e o que não era vendido, era colocado numa cesta, coberto com galhos de matos, tirados ali mesmo na restinga e levados nas bicicletas pelas ruas da cidade.

Os anos arquejaram os senhores do mar. Suas redes apodreceram estendidas nos quintais em enferrujados arames. Os barcos, virados de bunda para cima estão totalmente danificados pelo tempo. Esses bravos trabalhadores do mar, hoje de olhos caídos e "encostados no INSS", nem de longe lembram aqueles corpos sarados e olhares brilhantes dos anos de sua juventude...

A herança dos segredos duramente colhidos na vasta extensão de água salgada do mar, de suas artimanhas e ventos, outras vezes herdados de seus pais e avós não podem ser passadas para seus filhos e netos. Apenas a história de casos ocorridos em suas longas noites pode chegar aos ouvidos dos pequenos netos e filhos.

Os braços, estendidos deixando à mostra a pele enrugada e a tez flácida, apontam para ilhas e pedras. Lá, eles comentam dos grandes barcos que habitam os mares. São barcos de bandeira estrangeiras ou de falsa bandeira nacional. Dentro deles, contam a seus filhos que os olham admirados:

- Tem um vidro que vê onde está o cardume. Eles apertam um botão e sai uma rede de fios finos que pegam todos os peixes. Filhotes, fêmeas com ova na barriga, tudo eles levam para longe. Acabaram com tudo - diz, e seus olhos deixam cair uma lágrima que se junta às dos meninos...

Fonte: http://www.anovademocracia.com.br/30/32.htm

As duas covas no sorriso de Maria de Jesus

Crônica

Arte: Alex Soares

Seu vestido tinha a cor de um azul parecido com o de uma manhã de verão. Um pequeno suéter fazia contraste com os últimos raios do sol que caiam sobre o Morro do Carvão, hoje batizado de Alto dos Cajueiros.

Maria de Jesus não teve outra opção que não a derradeira.

Gostava do mundo. Seus 16 anos eram todos de festa e alegria. Os cursos de datilografia no Leão XIII e do primeiro grau do colégio estadual, ela cursava com uma imensa vontade de vencer. Tinha muita pena de seu pai que, durante quase 30 anos trabalhou como lavrador na Usina de Quissamã. Ficou entrevado e o governo o aposentou por um "fundo rural". Não tinha carteira assinada nem INPS. Margarida, sua mãe, vivia para baixo e para cima com a Bíblia embaixo do braço falando coisas de deus.

Ela andou frequentando, fazia tempo, uma igreja. Seu irmão era peão de uma empresa transnacional e faturava 35 por semana, o que não dava nem para sustentar a mulher e o filho doente de meningite.

Maria de Jesus tinha vontade de estudar para dar algum conforto à família. Na escola sempre se dedicou muito. Livros ela não tinha, mas copiava tudo que a professora dizia. Em sua mente só havia flores, sol e e bem-querer.

Não entendeu o porquê de, um dia, o pastor haver lhe excluído da igreja, tampouco o fato de seu pai ter lhe expulsado de casa. Afinal fora levada à força por dois homens que lhe "fizeram mal". Se estava grávida era coisa do mundo. Quem podia evitar esse acontecimento?

2

A tarde tinha uma imensa mancha vermelha no céu e as crianças ainda brincavam de pipa no entardecer do viaduto quando um clarão rolou pela ribanceira.

O arder de um corpo jovem era como uma bola de fogo que a todos "curiorizou". Maria tinha ateado fogo ao seu vestidinho de ir à igreja e às festinhas das colegas. Jazia morta, já na estrada, num lado do asfalto, onde seu corpo parou de rolar. Preferiu este gesto a ter que ser "mãe solteira".

Seu enterro teve um ritual simples. Caixão doado pelo município, cova de indigente e um vestido branco sobre seu corpo agora negro pelo queimar.

Algumas amiguinhas, uma palavra do encarquilhado pastor citando parábolas de um santo livro que dizia: "Quem não tem pecado atire a primeira pedra", uma maneira de justificar seu esquecimento ao expulsar Maria de Jesus. Seu pai, numa cadeira de rodas, dizia que a "perdoava".

Era uma santa sendo perdoada por demônios.

A noite veio novamente cair sobre o Morro do Carvão. A vida continuou sua marcha inexorável. Novas meninas brincam sobre lama e detritos. A sequência é uma normalidade.

Maria de Jesus não anda mais com sua boneca abraçada nos arredores da Praia Campista, nem terminou seu primeiro grau no polivalente...

3

Conheci Maria de Jesus.

Foi numa de minhas andanças quando era candidato e acreditiva no parlamento como solução para as desigualdades da sociedade. Era candidato a deputado pelo PT. Íamos eu, Lisâneas e a Iza falar ao povo do morro. Andávamos de casa em casa. Numa dessas, fomos convidados a entrar. Num canto, um velho doente. No outro, três criancinhas esquálidas. Em uma TV preto e branco passava o "Jornal da Tarde" . Um vulto loiro atentava minhas falas e a do Lisâneas. Irradiava um olhar verde sob uma testa angular e serena. Parecia ter, e tinha, 16 anos. Seus lábios eram da cor rósea que revelou para nós, quando sorriu pela primeira vez, uma carreira de dentes alvos e perfeitos.

O corpo jovem tinha a leveza de uma nuvem ao vento. Era a própria beleza natural que contamina. Suas mãos eram de tamanho combinativo com os antebraços que, aureolados com fios aloirados, davam vida às musas européias. Ela me olhou de soslaio depois de ouvir falar sobre política com seu cansado pai.

Falou-me docemente:

- Posso fazer uma pergunta ao senhor?

Respondi que sim, já imaginando alguns dos muitos equívocos que a idade lhe orna.

E ela:

- Por que as pessoas pobres, que não têm este tal de convênio, quando vão aos médicos vêem dois consultórios? Um, todo de poltrona, ar condicionado, servindo coisas para as pessoas e, outro, ao lado, sem cadeiras, com as pessoas sentadas em cimento, todos tossindo um ar de doença? A gente não é todo mundo igual?

Prosseguiu senera:

- Eu conheço o senhor e se pudesse votar, votaria em seu partido.

- Você me conhece de onde? Não me lembro de tê-la visto antes.

E ela, com uma voz que me deu mais força para continuar na luta política, replicou:

- Todo dia eu vejo o senhor na televisão. O senhor sempre aparece e, como fala em Macaé, eu fiquei esperando o senhor aparecer um dia para pedir a papai para votar.

Saiu correndo, corada, quando ao me despedir, juntamente com Lisâneas e Iza, comentamos as covas de seu sorriso...

Maria de Jesus não chegou a votar. Hoje, quando o meu editor Moreira me cobrava uma crônica, me lembrei dela. Também me lembrei de que o PT chegou ao poder... dos exploradores. A medicina está cada dia mais voltada para a ganância capitalista, a assistência médica aprofunda o desprezo pelos pobres.

E a direção do PT, definitivamente, longe das massas. Nunca vai entender isso.


Fonte: Jornal "A Nova Democracia" http://www.anovademocracia.com.br/31/32b.htm